terça-feira, 10 de agosto de 2010

Arquivo poético - prefácio do livro Quatro Gavetas

por Benedito Nunes


Descobre a poesia aquele que a descobre no exercício da linguagem comum, como o faz Eleazar Venancio Carrias neste Quatro Gavetas: as interrogações, os contrastes, as contradições que a existência humana pronuncia.

Entre essas contradições, destaca-se a tensão entre ausência e presença. O sorriso da pessoa amada, por exemplo, é uma ausência sentida, imaginada; a ausência se torna presença pelo ato de amor que a preenche:

“Estranha, a tua presença seca
– no ar.
Por instinto minhas mãos tocam teu sorriso doce
– ausente.”

O amor é um desejo vago, “coisa feito bruma”. As paixões são fortes, afetam “artérias e nervos”, elas explodem sem que seu objeto se materialize. A saudade do objeto amado é “uma presença residual”. Por isso, “um vazio imenso” se infiltra no próprio poema, que se substitui ao ventinho fresco desejado. Em toda a obra, ausência e vazio se repetem.

“Não há esperança
pois não há o tempo.”

Daí o descontentamento que perpassa nesses versos de um lirismo desiludido, juntando tantas “coisas esquecidas”, Deus e orações e amigos, e concebendo o Espírito Divino como quem sofre e geme nos versos do poema. Não se sabe se Deus foi perdido ou se está esquecido.

Tudo é dúvida numa poesia em formação, como a de Eleazar Carrias – poesia à busca de seu caminho, de seus ritmos, de suas formas, mas já abrangendo, em seu desencanto, o choque das contradições e da insolúvel relação entre presença e ausência.

A busca poética jamais finaliza. A de Eleazar Carrias há de levá-lo a preencher as Quatro Gavetas desse arquivo poético com a matéria adequada a cada espécie de madeira – acapu, angelim, miriti, e cedro – que o constitui. Assim, já no primeiro poema, mesmo a visão da realidade que se guarda sob a mais dura madeira implica em silêncio, nudez e abandono.

A visão

Todas as noites
me levanto pela madrugada,
quando ainda sonham os galos,
e ouço o silêncio me chamando lá fora.

Pela fresta da janela
vejo a rua despida
e o frio a lamber-lhe as curvas.

Todas as noites se repete o convite.

E no dia seguinte
me culpo por abandonar a noite
sozinha
lá fora.

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