terça-feira, 15 de maio de 2012

Você nunca



Você nunca pegou uma dessas pedrinhas brancas e lisas que a gente encontra nos riachos e ficou olhando pra ela com grande pesar. Não ficou olhando, olhando... até tudo em derredor tornar-se silencioso e nada. Nem achou que essa pedra é tão bonita e estava fazendo o quê num riacho. Não achou tão bonita e tão útil essa pedra a ponto de pô-la com carinho entre a mão e o peito e levá-la pra casa e deixá-la amiga e solidária na estante, ao lado de livros antigos bem lidos. Se um cientista pegasse essa pedra, tiraria dela tanta coisa que daria um livro. Faria o discurso da pedra, daria uma vida à pedra. Não é sempre que se tem riacho. Muito mais não é sempre que se tem pedra branca e lisa colhida em riacho. Você nunca amou uma pedra assim porque uma pedra num riacho não faz diferença: do riacho o bom é a água. Eu também não importantizava as pedrinhas riachais. Foi um escritor de nome que esqueço que me fez amá-las. Você nunca. Eu as amei tanto que levei delas pra casa.
Perderam toda a beleza.


[poema inédido de Eleazar Carrias]

3 comentários:

  1. Quanto mais te leio mais encantada fico. Ainda imagino aquele encontro literário onde eu poderia constatar que você existe de fato, com toda a beleza que transmite a tua escrita. Da tua fã
    B.C.

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  2. Uma das poesias mais belas que já li. Sou suspeito por dizer isso, mas não posso negar o que está explicito aos olhos dos leitores, que já não são os mesmos. "Long live the Fugitive!"

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